Ulisses Tavares, polígrafo e entrepreneur brasileiro.
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Março 2008 - Revista Atitude
 
 
 
 
 
 
 
   Escritor, jornalista e publicitário, Ulisses Tavares é a prova viva de que é possível viver de literatura. Militante pela liberdade de expressão em plena ditadura, Ulisses foi preso oito vezes nos anos 60, viveu numa comuni­dade hippie, organizou festivais de poesia nu, criou um campeão mundial de Jiu-Jitsu e salvou do abandono centenas de cães de rua. No meio disso tudo, encontrou tempo para publicar mais de 120 livros.
 
 
 
UMA CRIANÇA MUITO PRECOCE
 
      Nasci em Sorocaba, no interior pau­lista, e ainda bem pequeno aprendi a ler. Aos seis anos, eu já lia clássicos da literatura mundial, como os livros de [Fran^] Kafka e [Liev] Tolstói. Hoje, nós reconhecemos essas crianças que se desenvolvem muito rapidamente como superdotadas, mas na época em que nas­ci uma criança assim era simplesmente um garoto pentelho.
      Tive meus primeiros textos publica­dos aos sete anos, no jornal Folha de So­rocaba. Um dos meus primeiros trabalhos foi um poema que relacionava a vagina com Deus. A poesia gerou forte repercus­são e não só eu deixei de colaborar com o jornal como causei a demissão do editor que selecionou o poema. No mesmo ano passei a escrever para o jornal concor­rente, o Diário de Sorocaba e venci um importante prêmio de literatura. Agora, você imagina um sujeito com um nome como o meu, que é um nome de velho, ganhando prêmio de letras? Quem não me conhecia, achava que se tratava de urn veterano e eu mal tinha saído da in­fância. Aos nove anos, me tornei repór­ter e editor do jornal, escrevendo repor­tagens, poesias e assinando uma página de coluna social.
 

COLUNISTA SOCIAL

      Na época, sair numa coluna social era um símbolo de status sem igual e eu era muito assediado nas festas de Sorocaba. Para mim, era natural escrever e ocupar aqueles espaços. Mas para minha família tudo parecia muito estranho. Sou filho de uma empregada doméstica e um ope­rário, uma família humilde, que não via seu garoto de nove anos escrevendo para um jornal! Meus pais já morreram e, às vezes, tenho a impressão de que nunca compreenderam minha vida, meus desejos e nem eu me esforcei para explicar-lhes o que acontecia.
      Um aspecto positivo, no entanto, que eu quero registrar sobre minha famí­lia, é que nasci numa casa onde a estante de livros ficava no centro da sala. O des­taque eram os livros, não a televisão. Isso permitiu que, mesmo pequenino, tivesse acesso à leitura, pudesse aprender por conta própria.
 

CASADO AOS 14 ANOS

      Logo aos 14 anos, me casei com uma mulher de 34 anos que conheci em Sorocaba. Eu queria ganhar o mundo e viemos viver em São Paulo, num apar­tamento no edifício Copan. Na capi­tal, publiquei um livro chamado Re-rruniscênc/as, que, como vocês sabem, quer dizer "lembranças". Hoje eu dou muita risada disso. Você imagina um sujeito de 14 anos publicando um livro chamado Reminiscências ?
      Aos 15 anos, tive minha fase de des-pirocar, do desbunde. Foi aquela fase de sexo, drogas e rock'n'roll que a geração dos anos 60 vivia. Eu era um adolescente muito pretensioso e fui viver em Trin­dade, uma comunidade hippie no litoral do Rio de Janeiro. Naquela época, li e escrevi demais. Foram três anos de vida em comunidade até que, aos 18, decidi voltar para São Paulo.
 

8 VEZES PRESO

      Note que nós estávamos no auge da di­tadura e eu decidi organizar um grupo com 250 poetas de todo o Brasil que escreviam contra o regime. Na mesma época, trabalhei nos jornais Diário de São Paulo e Jornal da Tarde. Como vocês podem imaginar, era um período muito difícil, estamos falando de censura e re­pressão. Não preciso dizer que fui preso, né? Perdi a conta das vezes que a polícia me prendeu. Umas oito, acho.
      Ao longo das prisões, no entanto, nunca fui torturado. A polícia nos pren­dia, mas o sistema não conseguia levar um poeta a sério! Aliás, nas prisões sempre me classificavam como comunista, o que me irritava bastante. Nunca fui comu­nista. Sou anarquista como meu avô que veio da Itália. Eu, já nos anos 60, sabia dos métodos do LJosefj Stalin e também nunca acreditei que uma revolução camponesa como fez Mão Tse-tung na China pudesse nos levar a um lugar melhor.
      Alguns amigos meus, no entanto, não tiveram a mesma sorte, como o Ale­xandre Vanucci, um colega escritor que morreu assassinado pela repressão. Toda aquela violência me levou a deixar o Jor­nalismo e a cidade de São Paulo.
 
 
A IRONIA DA MINHA HISTÓRIA É QUE, POR CONTA DA MINHA PRECOCIDADE, EUNÃO COUBE NAS ESCOLAS POR ONDE PASSEI. FORMALMENTE, MINHA EDUCAÇÃO TERMINOU NO PRIMÁRIO. NÃO TENHO DIPLOMAS
 

DIAS DE AGRICULTOR

      Deixei São Paulo e fui morar em Pie­dade, município a 100 quilômetros da capital. Uma das razões da mudança era escapar da repressão do regime militar, outra era realizar meu sonho de viver no campo, como agricultor. Ao longo da vida, a única filosofia religiosa que tocou meu coração foi o budismo e sem pre tive, no fundo, um desejo de estar próximo da natureza, de viver um estilo de vida especial.
      A verdade, no entanto, é que minha experiência como agricultor foi um fra­casso e logo fiquei sem dinheiro e preci­sei voltar para São Paulo. Na volta, tive minha primeira experiência como publi­citário. Fui para o mercado de propaganda porque percebi que um publicitário ganha para escrever três linhas o que um jorna­lista ganha para escrever três páginas!
 

PROFESSOR SEM DIPLOMA

      Produzi inúmeros trabalhos publicitá­rios, ganhei vários prêmios e, aos 21 anos tornei-me diretor de criação. No meio da publicidade, descobri também um viés de professor. Na agência [LJÍisses trabalhou na Thompson do Rio de Janeiro] ninguém tinha muita paciência com os estagiários e eu, como era um tipo mais bonzinho, dedicava horas do dia a ex­plicar-lhes as tarefas. Esse trabalho me deu a idéia de organizar cursos de cria­ção publicitária. Anos depois, virei pro­fessor de Marketing e dei aulas até em cursos de pós-graduação.
      O irônico desta história é que, por conta da minha precocidade, eu não coube nas escolas por onde passei. For­malmente, minha educação terminou no primário. Não tenho diplomas. Outro aspecto curioso é que, na Publicida­de, consegui ganhar bastante dinheiro a ponto de, três anos depois de trabalhar como diretor, sair da agência e ir viver no mato para escrever meus livros e poesias. Entre outras coisas, cuidei de dezenas de cachorros abandonados, uma atividade que me dá muito prazer.
 
 
 

150 MIL EXEMPLARES

      Eu sempre fui uma espécie de Robin Hood de mim mesmo. Tirava dinheiro do sistema para financiar minhas loucu­ras poéticas. Vivendo fora de São Pau­lo, escrevi e lancei o livro Pega Gente, até hoje meu maior sucesso. Trata-se de um livro de bolso, de poesias, que só nos dois primeiros meses vendeu 150 mil exemplares.
      Vender 150 mil exemplares de poe­sia é praticamente uma hecatombe, se levarmos em conta que as tiragens de poesia ficam na casa do um mil, dois mil exemplares. Isso sem falar nas reedições do livro. A obra tornou-se um marco na poesia alternativa brasileira e até hoje tenho dificuldades de entender as razões desse sucesso. Uma das explicações mais razoáveis é que o livro chegou às ruas no momento certo. Estou falando do fi­nal dos anos 70, um período em que a juventude estava sedenta por liberdade, contestação e engajamento.
 

O POETA NU

      No meio desse furacão, descobri o psi­quiatra Wilhelm Reich, de quem me tor­nei um admirador. A partir das leituras de Reich, pensei numa forma de interpretar o poema corporalmente, fazer o leitor senti-lo. Esta idéia terminou com recitais em que me apresentava totalmente nu e convidava a platéia a ficar nua também. Uma 'porra louquice' sem tamanho!
      Viajei o Brasil com esses recitais de poesia gerando muita polêmica, com os jornais me chamando de "poeta nu". O auge desse movimento foi um encontro no Parque Laje, no Rio de Janeiro, quan­do reunimos mais de 2,5 mil pessoas para ouvir e sentir a poesia em seus corpos. Logo depois, fiz o contrário e passei a organizar recitais na rua, mas vestido de terno azul, como faziam os bancários do Bradesco, algo totalmente careta. Na mesma toada, iniciei com uns amigos a edição do jornal Pindaíba, uma publica­ção provocadora que revelou vários po­etas e escritores.
 
AS PESSOAS QUE OCUPAM OS MELHORES LUGARES
NA SOCIEDADE SÃO AQUELAS QUE LÊEM E SABEM INTERPRETAR A REALIDADE
A VERDADEIRA PROFISSÃO
 
      Ao longo de toda minha vida, de todas as atividades que exerci, a poesia sem­pre permeou meu caminho. A poesia é um vício, minha cachaça. Às vezes meu único filho, o Ulisses Tavares Filho, cam­peão mundial de Jiu-Jitsu, me conta que seus amigos não levam a sério quando ele diz que tem um pai poeta. "Ah, seu pai escreve poesia? Mas e para ganhar di­nheiro, o que ele faz?", perguntam.
      Quando ouvimos alguém falar sobre poesia e literatura parece que as pala­vras e os textos surgem de repente. Na verdade, é preciso muita transpiração. Só este ano, eu lancei dois livros e estou terminando outros dois, que publica­rei ano que vem. Só é possível ter essa produção se você trabalhar duro e tiver muita disciplina.
      Durante muitos anos em minha vida, senti inveja dos escritores que se especia­lizam. Fulano é ótimo contista. Ciclano só faz romances. Sentia uma inveja da­nada, mas descobri que não consigo isso para mim. Eu preciso fazer todos os tipos de trabalho para me sentir satisfeito.
 

MISSÃO: ESCREVER

      Muita gente me pergunta sobre a missão ou o sentido de escrever, como se ser um escritor exigisse o compromisso de estar engajado o tempo todo. O que eu sempre digo é que a missão do escritor é uma só: escrever. Seria muito injusto exigir que todo escritor fosse engajado. Digo isso porque, no meu caso, sempre fui compromissado. Militei contra a ditadu­ra, contra o avanço da direita, a favor da Ecologia, pelos direitos dos animais. Estas foram minhas bandeiras.
      Mas posso citar uma lista de escrito­res geniais que não tinham engajamen­to com uma causa ou com políticas de uma orientação ou outra. Nosso maior poeta, Carlos Drummond de Andrade, não estava ao lado de nenhuma ideolo­gia, como também não estava [Fiódor] Dostoiévski. A causa da literatura é o ser humano, é iluminar as dúvidas de nossa existência.
 
PENSAMENTO CRÍTICO
      Outro dia, vi uma pesquisa em que os jo­vens são perguntados sobre o que querem ser quando adultos. Eles não respondem, quero ser médico, pedreiro, enfermei­ro ou qualquer outra profissão. Há um monte deles respondendo apenas "quero ser rico" ou "quero ser um empresário fa­moso". O que eu tento dizer para estes jovens quando vou a palestras ou aulas é que ler e formar um pensamento crítico são as únicas formas de compreender a realidade, transformar o mundo e, tam­bém, conquistar sua ascensão social. Ou você acha que alguém chega lá sem ba­talhar muito, sem ter conhecimento? As pessoas que ocupam os melhores lugares na sociedade são aquelas que lêem e sa­bem interpretar a realidade.
      Acho que a maior tragédia dos nossos tempos é o desprezo pela leitura. Sem ler, você não muda o seu pensamento e, sem compreender a realidade, também não podemos mudar o mundo para melhor. E olhem que o mundo caminha muito mal, com o agravamento das injustiças sociais, com o desafio do aquecimento global.
      Em última instância, eu digo para os jovens que até para namorar é preciso ler. Se você não nasceu com a cara do Brad Pitt, experimente ler, ter o que fa­lar à mesa, e vai se tornar alguém muito mais sedutor. +