Julho 2007 - Meio&Mensagem
Papo-cabeça na propaganda
O poeta Ulisses Tavares é o que se pode chamar de escritor compulsivo. Aos seis anos de idade, escreveu seu primeiro poema. Hoje, aos 57, já conta 116 livros lançados e pelo menos mais 20 estão na "cozinha", esperando publicação em uma das 18 editoras de suas obras. Embora se diga um poeta, escreve sobre todos os assuntos imagináveis. De poesia a teatro, passando por história em quadrinhos para adultos, histórias infantis, fábulas, relacionamentos, enfim, "coisas da vida em geral", para gente de todas as classes sociais, graus de educação e exigência literária. Por isso mesmo, Tavares se auto-classifica um polígrafo, aquele que escreve sobre temas diversos. Sua mais nova incursão pelo mundo da literatura é Quando nem Freud Explica, Tente a Poesia!, recém-lançado no Brasil pela pequena Editora Francis, comandada pela jornalista Sônia Nolasco, viúva de Paulo Francis, um dos ícones do jornalismo nacional.
Tavares empresta o nome do pai da psicanálise para passear por um universo em que poesia é só um pretexto para reflexões sobre morte, vida, sexo, amor, sonho, corpo, alma, ego, realidade. São 259 páginas nas quais ele dá ao leitor insights sobre o que grandes escritores e pensadores, além de outros nem tanto assim, escreveram a respeito dos temas citados. A costura dos minipoemas é dada por Freud, que escreveu "seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim", frase impressa logo nas primeiras páginas do livro.
Nascido em Sorocaba, no interior de São Paulo, filho de mãe doméstica e pai operário, Tavares é autodidata. Não tem diploma nenhum, nem de escola primária. No entanto, é chamado para dar aulas e palestras em universidades e escolas de renome, como ESPM e Faap, em São Paulo, onde ministrou cursos de criatividade, e na Fiap, também em São Paulo, onde estreou a cadeira de web marketing, em 1998, quando a internet ainda engatinhava no Brasil.
O ardor que move seus dedos ágeis no computador e estimula sua mente fértil vai além da poesia e das salas de aula. Tavares também atua como jornalista, publicitário, escritor, dramaturgo, compositor e consultor de comunicação. "Fui sempre alterando as profissões", diz, explicando que dá mais valor à vida do que ao ganha-pão. Quando o bolso aperta, busca emprego como free lance, quase sempre em uma agência de propaganda. Fica seis meses e sai. Com o dinheiro que junta, dá vazão aos seus projetos de poesia. E assim toca a vida. Com esse estilo mambembe, Tavares diz ter passado por grandes redações (O Cruzeiro. Folr: S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Bandeirantes) e grandes agências (Adag, Proeme — que a foi de Ênio Mainardi —, Thompson, Lintas. Almap, Loducca, Matisse, FCB). Em todas elas, foi o homem de criação.
Em propaganda, o seu forte é campanha política. Trabalhou, por exemplo, para eleger a então petista Luíza Erundina prefeita e, depois, governadora de São Paulo (hoje deputada federal pelo PSB/SP). E o atual deputado federal pelo PFL/PR, Cássk Taniguchi, também para prefeito (eleito para dois mandatos, de 1997 a 2000 e de 2001 a 2004) e depois para governador do Paraná.
Atualmente, Tavares escreve artigos para a revista Discutindo Literatura e sites culturais. Em breve, estréia como colaborador da Caros Amigos. Sem julgar a qualidade do seu trabalho, Tavares é um fenômeno de vendas. Ao longo de seus 51 anos de carreira, diz ter perdido a conta de quantos livros já vendeu. "Deve ter passado de 20 milhões", afirma. Desse volume, cerca de 6 milhões de exemplares foram só de poesia. Há um motivo que explica números tão expressivos: a maioria das suas obras é adotada em escolas de primeiro e segundo graus e entra nas compras feitas pelo governo federal.
Depois de tanto escrever, Tavares percebeu que foi um menino superdotado. Mas em 1956, quando, aos seis anos, ele preferia lápis e caderno à bola de futebol, ninguém entendia, nem mesmo seus pais. Suas esquisitices, no entanto, o impulsionaram inevitavelmente para uma vida entre letras. Contudo, o seu filho, Ulisses Tavares Jr, fruto de um dos seus oito casamentos, não puxou ao pai. É lutador de jiu-jitsu e leva a coisa a sério. "Eu sou papo-cabeça; ele é 'sopapo' na cabeça", diz o poeta, com sua verve criativa.