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Setembro 2007:
Vá ao teatro. Mas não me convide.
Esse era o título de uma camiseta, genial, do povo incorreto políticamente do Casseta&Planeta.
E que eu visto e assino embaixo.
Ninguém, hoje, tirando o pessoal de teatro, gosta de assistir o verdadeiro teatro.
Quem vai, vai pra se divertir, esquecer os problemas, passar o tempo.
E teatro-cabeça incomoda, põe minhocas na cabeça, faz pensar.
E quem quer pensar hoje em dia se já pensa tanto no dinheiro, na profissão, no dia a dia, no cotidiano, em geral medíocre?
Bacana é ver um espetáculo que predispõe, põe, à pizza, ao jantar alegre com os amigos.
De problemas basta a vida, curtida, parida, sofrida, entre negócios e agenda apertada.
Teatro bom é teatro-espelho. Aquele que confirma como eu devo ser/continuar a ser alienado, pirado, desplugado.
De repente, dou um giro por aí.
Teatro pensante só acho nos porões, nos guetos, nos alternativos.
Quase sempre entregue às moscas, poucos na platéia, quase todos amigos e convidados e um ou outro incauto que parou lá de paraquedas.
Teatro bom é espécime em extinção.
Feito na raça, na graça, na praça Roosevelt.
O resto, teatrão, lotadão, fica para a classe mérdia, que engole tudo que a mídia avaliza, autoriza, patrocina. O texto entra por um ouvido e evacua pelo outro.
Esse negócio de apenas ser viável encenar uma peça aqui no Bananão através de paitrocínios de empresas privadas ou estatais transformou o investimento teatral em outra modalidade de lavagem de dinheiro. O paitrocinador prefere conteúdos palatáveis, assuntos que não cheiram nem fedem. Transgressões, polêmicas, nem pensar. Pega mal prá marca. O mercado não é louco de dar tiro no próprio pé, com conteúdos contraculturais
Vai indo que eu já fui ver o que ainda resta do verdadeiro teatro, aquele que remexe a ferida viva, que surpreende. Antes que acabe. Ou acabem com ele.
Ulisses Tavares assiste e gosta de peças alternativas, fracassos de bilheteria. Coisas de poeta.
Outubro 2007:
Nem Cristo Silva
Pode ser que um dia o mundo acabe para os maus, condenados a eternidade de enxofre e dor. Mas nem unzinho deputado corrupto ficou na cadeia até agora. E minha crença foi para o inferno das boas intenções.
Admito que é dando que se recebe. Muitos pastores garantem isso. Só que tenho dado mais da metade do pouco que ganho para os impostos de César e não sobrou para Deus. Vai ver que é porisso que Ele me castiga com juros e multas de sofrimento e continuo pobre como Jó.
Maravilha o pensamento positivo, que atrai mulheres, sucesso e alegrias sem fim. Me atrapalho, porém, com o trânsito pesado, as caras fechadas, as balas perdidas e fico pessimista como um urubu voando baixo. O otimismo não está, definitivamente, ao alcance de todos.
Gosto muito de ler e ouvir sobre os poderes dos cristais, dos duendes, dos gnomos, das massagens sem mãos, das programações neurolinguisticas. Hipocondríaco de carteirinha, procuro médico e tomo remédio ao primeiro espirro. Daí saro da gripe, a gripe não vira pneumonia e sou excluído do fantástico mundo holístico, onde até câncer é curado com a terapia das cores e dos abraços.
Meditação, concentração e mantras bastam para se viver bem, em paz. Claro que assino embaixo. Só que, limitado e carente que sou, valorizo mais bundas que Buda. E acabo aflitivamente correndo atrás de amores terrenos, deixando o amor divino para depois.
Nem a tradicional igreja católica que educou minha família e a mim desde criancinha me atrai mais. Não consigo deixar de usar camisinha, sou a favor do aborto e não tenho nada contra os homossexuais.
Sou de fato um desastre como homem de fé. Desconfio da religião. Tenho excesso de necessidades do corpo e fome zero de alma.
Condenado a um humanismo sem esperança e sem futuro, do amor fraterno. Afinal, ninguém mais acredita no ser humano.
Ulisses Tavares só não sofre de torcicolo por não ficar olhando direto para o céu. Coisas de poeta.
Novembro 2007:
A grande solidão
Sozinhos nascemos. Sozinho morreremos.
Assim é, assim sempre será.
E morrer, como todos sabem, é uma grande chatice. Algo que não se evita, infelizmente, nem malhando em academia e deixando de fumar. O ruim da morte é que evita a continuidade de nossos queixumes e esperanças.
Mas tem, sim, uma coisa pior que a grande e afiada foice.
É a morte em vida.
Aquela que permitimos, autorizamos, mas não deixamos rolar.
Me refiro, denuncio, essa morte estúpida e cotidiana de nada fazermos para romper a solidão. A minha, a sua, a de todos nós.
Custa pegar o telefone? Custa tanto assim abrir a porta? Custa algum dinheiro irmos de encontro ao outro?
Custa sim. Custa tanto que poucos fazem, preferindo se encapsular, como disse Fernando Pessoa, em sua própria cabeça.
Me refugio em meus pensamentos e excluo o Outro de meu mundo. Simples assim. Cruel assim. Meio masoquista, meio sádico.
Afinal, o Outro não me entende, compreende, me abraça.
Meus problemas são meus e ponto final.
Existe coisa mais estúpida que essa? Que tipo de animal somos nós que acha a solidão uma forma de defesa? Algum meteorito caiu sobre nossos genes e alterou nosso existir no mundo? O que existe de tão terrível em abrir nossa alma, escancarar nosso coração, nos entregar a braços e corpos estranhos? Será que ser frágil e finito e humano é mesmo uma fraqueza?
Nós, esquisitos humanos, por meios culturais ou genéticos, conseguimos o que pareceria impossível: sermos um organismo vivo que renega outro organismo vivo. Porisso colamos rótulos de inimigo na testa de quase todo mundo.
Mas a verdade é uma só e se sobrepõe a tudo:
Se estou sozinho, estou morto. Orgulhoso zumbi.
É minha culpa, minha responsabilidade. Cabe a mim tomar uma providência já, agora. Será que sou capaz de fazer isso? Ou vou continuar esperando que o Outro tome a iniciativa?
Ulisses Tavares é o Outro,um cara igual a você. Idiota e solitário. Coisas de poeta.
Dezembro 2007:
Seres natalinos e imaginários
Em Deus eu não acredito. Acho tedioso e inútil, entrar num revendedor autorizado de Deus (a igreja) e pedir alguma coisa a um ser do imaginário infantil e patrocinador das guerras. O Tio Patinhas do universo ouve apenas o tilintar das moedas.
Já em Papai Noel eu acredito. Fruto do sistema capitalista, do qual também faço parte se bem que da banda dos explorados, suas regras são claras. Pagou, levou.
Onipresente e espalhafatoso, este portador de obesidade mórbida e roupa de palhaço é acessível ali no shopping center ou no camelô. Brega, interesseiro, oportunista, mas gente como a gente.
Se você quer algo terráqueo, pode se dirigir ao Papai Noel mais próximo e obter na hora. Democrático, o adiposo vestido com as cores da coca-cola, tem de tudo para todos.
O rico, da zélite, encontra no saco do velho polonortista, do bom e do melhor. O pobre, da zémanélite, também sai com seu presentinho made in china e, se der sorte, com um cartão de esmola, digo, benefício governamental.
Papai Noel, realista, dá a cada um conforme sua posição na pirâmide social, que é aquela onde meia dúzia fica lá em cima, na pontinha, cagando na cabeça da maioria.
Já Deus é um cara nebuloso. Única prova de sua existência é aquela que se vê nos noticiários: todo bandido brasileiro, de colarinho branco ou encardido, ao entrar ou sair da cadeia garante que Deus não o abandonará.
Mais convincente é Papai Noel que, também nos noticiários da televisão, distribui panetones vencidos e brinquedinhos vagabundos para os pobres que moram lá naqueles lugares onde as empregadas se escondem nas ceias natalinas.
Deus faz parte da mitologia. Papai Noel da nossa idiotia.
E, afinal, Deus não tem cara.
Já Papai Noel é a cara de um presidente que um dia nós acreditamos muito. E que, se Deus quiser, ainda vai trazer o presente prometido. Ou não?
Ulisses Tavares acredita que a esperança às vezes morre antes. Coisas de poeta.
Janeiro 2008:
Ano novo, velhas resoluções.
Todo ano novo é de novo a mesma coisa. O mesmo conflito. A mesma mistura de euforia, esperança e cansaço. Em francês, esse sentimento é mais chique: déjà vu. Mas em português é mais cru: já vi esse filme antes.
Vou mudar tudo. Nada vai mudar.
Nisso sou igual aos poderosos fdps de plantão no phoder. Prometo mas não cumpro. Eles animam e frustram milhões de pessoas. Eu apenas uma, a única que acredita em mim por falta de opção. Me engano que eu gosto.
Coerente com os novos tempos, vou reciclar minha velha listinha de resoluções de ano novo. Em último caso, troco minhas decepções por créditos de carbono. Taí. Se o mundo pode eu também posso trocar seis por meia-dúzia. Se os países trocam sujeira de um lugar por dinheiro limpo em outro (esquecendo que a terra é redonda!), porque não eu? Também solto pum e respiro, ora.
Lá vai minha listinha, portanto, atualizada pela experiência:
1. Vou encontrar meu grande amor. Ou meu amor meia-boca. Ou meu amor xinfrim. Amor tipo casas bahia, sempre em liquidação, já está bom para portador pca (puzta carência afetiva).
2. Vou continuar sendo honesto. Se bem que isso não é opção.Poetas e pobres são sempre incorruptíveis. Nome de rico vai para a Polícia Federal, nossos vão é para o Serasa.
3. Vou cuidar melhor da saúde. Cigarros, bebidas e combatem o stress, esse vilão da vida moderna. Quando os médicos não sabem o que tenho, dizem que é stress, portanto urge combater o stress.
4. Vou praticar mais exercícios. Se bem que pensar já é um exercício e tanto, prometo caminhar até o balcão em vez de chamar o garçom.
5. Vou ser mais otimista. Prestar atenção em notícia ruim atrapalha o pensamento positivo, azeda o alto-astral. Cancelarei minha assinatura de Caros Amigos. Com sorte acabo o ano sendo dizimista evangélico ou terapeuta holístico.
Ulisses Tavares faz a mesma lista de ano novo há mais de vinte anos novos. E nunca cumpriu. Coisas de poeta.
Fevereiro 2008:
Compulsões físicas e institucionais
Compulsão é aquele impulso que nasce lá no sistema límbico, portanto fora do racional, do consciente, e nos leva ao descontrole, ao vício.
Eu tenho cinco compulsões já analisadas, detectadas, e que, a menor bobeada, o menor vacilo, a menor baixa de vigilância, me levam ladeira abaixo. Sou um selvagem acorrentado pela civilização e auto-censura, como diria o Freud que tudo explica menos tesão de pica que é aquele que fica.
Quatro delas são: álcool, tabaco, sexo e leitura.
Já li a bíblia de Gideon em quartos de hotel. Instruções de emergência em avião. E até rótulo de papel higiênico, na falta de coisa melhor e acessível.
Esta compulsão até que deixo fluir e me é útil: como escritor, preciso mesmo ler muito e sem parar.
Alcoolismo trato em reuniões no Alcoólicos Anônimos e, com isso, fazem bons anos que não sou mais um bêbado público.
Tabagismo é complicado parar, mas só me permito uma pequena cota de cigarros por dia, como se fossem injeções de insulina para diabético.
Sexo, na ausência eventual de parceira, faço com quem conheço melhor e está, literalmente, sempre à mão: meu próprio corpo.
Mas minha compulsão pela leitura é pinto perto dos cinco jurados que a Funarte nomeou para seu último concurso literário, em dezembro.
Acreditem se quiser: no dia 12 de dezembro, a Funarte recebeu 500 (isso, quinhentos) trabalhos de escritores inscritos.
E já no dia 14 (isso, dois dias depois), o Diário Oficial publicava a lista dos 10 escolhidos para receberem a polpuda bolsa financeira como premio.
Ou seja, leram 20 originais e propostas (algumas com mais de 200 páginas) por hora!
E conseguiram ler até as obras que nem haviam chegado pelo Correio!
Compulsão institucional é isso aí.
Ulisses Tavares tem uma quinta compulsão que, apesar de brasileiro e intelectual, nunca deixou vir à tona quando foi jurado de concursos literários: a velhacaria. Coisas de poeta.
Março 2008:
O poeta roda a bolsinha.
Ei você!, jovem com pretensões literárias, ansioso para publicar seus livros e, com eles, mudar o mundo e mudar de vida.
E ei você!, coroa beletrista, mais que passado da hora de eternizar suas verdades, em prosa ou verso, seu cantos do cisne.
Nos dois lados da ampulheta, tudo isso fiz, faço e farei.
E hoje, escritor profissional, posso dizer com todas as letras, literalmente, que esse sonho, o de viver apenas do que se ganha como autor no Brasil belga e indiano é uma roubada.
Deliciosa, heróica e furada canoa.
Em qualquer idade ou ritmo de produção, trabalha-se muito e ganha-se pouco.
Numa rápida contabilidade, dou a seguir alguns números do padrão Livros Vendidos = Poder de Consumo. Ganha-se 10% do preço de capa, lembrem-se.
Portanto, para um café com pão na padaria da esquina, tenho de vender 3 livros. Para um quilo de feijão, idem. Para um almoço com refrigerante dolly, 6 livros.
Ir ao cinema com a paquera, 22 livros. Somando a pipocona estilo americano, 28.
Para comprar um carro popular usado, 13 mil livros. Viagem a Paris, 15 mil livros numa trip de mochileiro.
Precisaria existir um Bolsa Escritor pra aliviar a barra? Não sei. Precisamos é de mais leitores, não de mais escrevinhadores.
Porisso existem tão poucos escritores e poetas profissionais tupiniquins. A grande maioria, que não é louca nem estóica como eu, amarra seu burrico num carguinho do governo e deixa a literatura como um luxuoso e supérfluo hobby.
Se bem que vender a alma ao diabo do sistema e a deusa da literatura raramente produz um Carlos Drummond de Andrade. A maioria escreve e publica só por vaidade mesmo.
Mas o excluído do capitalismo aqui, continua rodando a bolsinha mas não abre.
Chato é que aquilo que uma garota de programas de um Bahamas ou bordel top ganha em uma hora, eu só ganho se vender 500 livros!
É soda.
Ulisses Tavares vive só com o ganha escrevendo. Porisso vive mal. Coisas de poeta.
Abril 2008:
Procuro uma mulher
A mulher que procuro é tão simples e básica como eu.
Ela só quer que não lhe toquem nas feridas da alma mais do que o mundo já faz.
Deseja colo e aconchego essa mulher. Mas nunca que os dedos leves que lhe fazem cafuné se aproveitem para lhe apertar, pesados, a garganta com cobranças e compromissos impossíveis.
Aceita críticas e correções. Desde que não estraguem as horas plenas do prazer, da descontração, da entrega quando está bem acompanhada. E essas são 24 horas por dia. Mesmo que durem apenas minutos.
É uma mulher estranha, diferente, única. O fato de ser rotineira, igual e previsível, ora, é um detalhe irrelevante. Ela se reflete, e acredita, na imagem que vê num espelho mágico. Se o espelho quebrar não conseguirá juntar os caquinhos.
Independente. Totalmente. Irrestritamente. Não precisa do outro pra nada. Nem para trocar lâmpada ou consertar chuveiro ou arrumar emprego de bom salário. Ela se basta e pronto. E ponto. Mas não ponto final. Três pontinhos, reticências...Vai que alguém lhe alivie o fardo...que lhe tire o dardo cravado no sonho e no cheque especial. Esse alguém não existe, se diz ajustando o despertador para mais um dia de problemas.
Na falta de um homem, ideal, pega outro, menos mal. Até que o mala cresce e aparece e é trocado pelo menos pior. Antes mal acompanhada do que sòzinha consigo mesma. Meio cansada de só ficar para não ficar só.
Ah, essa mulher que procuro tem muitas teorias bonitas sobre as relações sentimentais.. A prática, porém, a faz tropeçar e chorar feio.
Resolve o mundo fácil. Ela, porém, é um mundo indecifrável. Talvez um corpo de galã com uma cabeça de gênio lhe tragam a resposta. Serve separado, corpo de gênio e cabeça de galã nas madrugadas insones.
A mulher que procuro sou eu de saias. Por isso nunca a encontro. E, quando encontro, saio correndo. De medo.
Ulisses Tavares idealiza as mulheres que ama. E erra sempre. Coisas de poeta.
Maio 2008:
Chamem o sábio chinês para o Tibete
O Tibete é o cocô do cavalo do bandido chinês.
Aliás, o Tibete inteiro é uma titica perto da grandeza da China: sua economia representa apenas 0,14% da economia chinesa e sua população só míseros O,2% do total da chinesada.
Além do mais, os tibetanos são majoritariamente tibetanos, os chineses são de outra etnia, a han. Quer dizer, são vizinhos mas não parentes.
Então porque, desde 1950, a China não larga a rapadura tibetana?
A resposta está na cara: se o Tibete volta a ser independente outras fatias da colcha de retalhos que o governo chinês mantém costuradas pela força também podem ter idéias separatistas.
Como diria o sábio chinês, a China quer ter tudo sem abrir mão de nada.
Querem -e ganham- o lucro do capitalismo sem a democracia.
Querem produzir mais e fodam-se os rios, morram as florestas e que se empesteie o ar.
Daqui a pouquinho o mundo vai ver o que é bom pra tosse quando um bilhão de chineses comprarem seus carrinhos poluidores.
Os extremistas árabes soltam bombas. Os chineses emergentes soltam o peido nuclear de mil megatons de fuligens e resíduos.
Pulmões, paz, cultura budista de milhares de anos, nada muda a antiqüíssima filosofia chinesa de opressão liberticida.
Não existe sabedoria humanista na China, nem nunca existiu sábio algum por lá.
Só houve Confúcio com seus tratados que serviam mesmo era para justificar a vassalagem do povo diante de despóticos senhores.
Nem o Dalai escapa da lama chinesa.
O Buda deles continua sendo Mao Tse Tung, um genocida que matou mais de 20 milhões em sua loucura. Um cara que nunca escovou os dentes e passou sífilis para centenas de chinesinhas camponesas. Um grande iluminado.
Claro que o povão chinês não tem culpa. É apenas gado marcado e numerado numa ditadura infinda.
Ulisses Tavares já flertou com o maioísmo quando era jovem e tolo esquerdista mal informado. Hoje é praticante do budismo tibetano. Tashi delek!
Junho 2008:
Traveco.
Quem nunca cobiçou um,
que atire a primeira pedra.
Antes de pipocarem os escândalos dos galãs globais e dos ronaldinhos envolvidos com travestis, muita gente nunca havia atentado para o fato disso ser um espelho de uma sociedade esquizofrênica como a nossa.
Ou seja, falamos mais de sexo do que fazemos. E fazemos mais por baixo dos panos do que falamos.
O problema, evidentemente, não é o travestismo. É a velha e milenar luta entre moralidade repressora versus sinceridade sexual. O esfuziante Eros e o sisudo Tanatos.
Freud já sinalizou para nossa bissexualidade. Reich avisou sobre o mal que a repressão sexual causa no corpo, na couraça do caráter. Young alertou sobre os sonhos eróticos e liberação da libido indistinta. E a biologia abunda de exemplos sobre a ambigüidade sexual.
E as associações de travestis, bem organizadas em São Paulo e Rio, ao menos, confirmam que sua clientela principal é de casados prontos a serem viadinhos.
Sendo mais rasteiro, li as reclamações, inúmeras, da mulherada na web e vi que elas acham os travestis mais sérios concorrentes que suas rivais tradicionais. E imbatíveis.
“Como posso vencer uma mulher com pinto?”- perguntam elas.
Mais rasteiro ainda, sugiro um pênis de plástico, a venda em qualquer sexshop, ora.
A maioria dos homens que procuram travestis é casado, heterosexual convicto e, na hora agá, ficam de quatro e pede para serem passivos.
Sócrates, Platão, Aristóteles, gregos e troianos nunca se chocaram com um guerreiro machão sendo mulherzinha de outro machão. Homem se sente mais à vontade com outros homens, vejam-nos assistindo futebol e nos desmintam se forem capazes.
Talvez seja a hora da moral tirar a máscara e admitir que o tesão não tem identidade mesmo.
E parar de atirar pedra na inocente Geni.
Ulisses Tavares na última vez que transou com um travesti estava tão bêbado que é capaz dela ter sido uma mulher com clitóris avantajado. Coisas de poeta.
Julho 2008:
Encalhei
Meu navio corpo encalhou num banco de areia quando comecei a singrar velozmente as léguas dos vícios. E agora o vigor da juventude é uma ilha perdida a mil milhas daqui.
Meu navio espírito encalhou em maré baixa quando minha fé foi saqueada pelos piratas do templo é dinheiro. E agora rezo às vitrines dos shoppings, esses altares iluminados e profanamente sagrados para o homem contemporâneo.
Meu navio coração encalhou nos recifes para onde as sereias me atraíram. E agora confundo seus cantos dantes melodiosos com estridentes risadas de escárnio.
Meu navio ideologia encalhou quando votei, errei e meus eleitos partiram em seus iates. E agora estou jogado aos tubarões que comem peixinhos mirrados e plebeus como eu.
Meu navio consumidor encalhou nos ouvidos surdos do teleatendimento, que só tem tempo para vender. E agora corro atrás da furreca da garantia do liquidificador. O que era para facilitar o meu dia-a-dia serve apenas para desperdiçar os meus dias.
Meu navio cidadão encalhou no chiqueiro imenso da economia porcalhona. E agora procuro, sem achar, uma ong não corrompida. Havia uma, disseram, mas afundou por falta de financiamento.
Meu navio desejo encalhou no furacão dos corpos nus, reais e virtuais, que me envolvem. Não tendo igualmente corpo tentador para trocar me restaria o consolo de comprar unzinho, mas agora estou pelado com a mão no bolso vazio.
Meu navio contribuinte encalhou e a guarda-costeira só acode mediante proprina. E agora espero um fiscal mais compreensivo e mais baratinho.
Meu navio transcendental encalhou na porca miséria da matéria. E agora medito sobre as contas a pagar no final do mês, no final dos tempos dos eternos carnês.
Já me imaginei navio senhor dos sete mares.
Encalhei na realidade e me vi canoa furada. E a água continua subindo.
Ulisses Tavares até sabe que o navio de nossa vida nem sempre chega ao porto pretendido. Mas não se conforma. Coisas de poeta.
Agosto 2008:
Feio por fora, bonito por dentro.
Vou direto ao ponto: ser feio é triste, dá trabalho, enjoa, mas tem lá suas vantagens.
É triste porque um feio é sempre o último da fila na batalha pela mulherada.
Nem plástica resolve. Um feinho de nascença como eu com implante de cabelos é apenas um feinho cabeludo.
Porque saradão um feiote raramente é. Seu senso de realidade nunca vai permitir que ache que uma barriga de tanquinho vai substituir ou desviar a atenção de seu conjunto genéticamente anti-estético de frankestein.
Mulheres adoram ter um feio e um gay como melhores amigos. Para o gay, tudo bem, já que não está interessado nela. Mas o feio morre por dentro ouvindo aquela gostosa chorar em seus ombros pelo bradpitt que a rejeitou.
Feio sempre tem dez vezes mais trabalho para seduzir.
Desprovido de estampa, desfalcado da famosa impressão é a que fica e leva pra sua pica, só lhe resta tentar desesperadamente fazer a moça olhar para seu interior.
George Guinle dizia que só existe uma saída: atordoar a donzela com seu papo. Só que ele era feinho mas ricaço. Para os pobres, haja baldes de saliva.
Enjoa ser feio num mundo onde a boniteza leva direto ao sucesso e a inteligência e o talento ao cheque sem fundos.
Não conheço nenhum forma-de-fazer-diabo que tenha levado uma cantada.
A vantagem de ser feio é que você fica esperto.
O argentino Gonzalo Otálora, em seu livro “Feo”, destaca: se alguma menina linda quiser ficar com um de nós e, em seguida, desejar ir para nossa casa, isso significa que algo está errado.
Feio e meio velho, eu acrescento, está na categoria Homem Invisível. Elas nem olham pra gente e, quando olham, é de viés. Nem é por maldade. É auto-defesa.
A vantagem final é que, garantem as mulheres tipo a gurua das encalhadas, Martha Medeiros, é que mulher tem faro, não se contenta com a embalagem.
Tomara que sim.
Ulisses Tavares é bem bonitinho por dentro. Pena que elas não notem. Coisas de poeta. |